Egito perde 80% do turismo desde 2010 e é país com pior perda na década

A receita turística anual do Egito caiu quase 80% desde 2010, devido a uma onda de ataques terroristas e instabilidade política. Os dados são do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC – World Travel and Tourism Council), organismo do setor turístico.

A receita obtida com turistas estrangeiros caiu 45,4%, para E£ 29,8 bilhões (US$5,1 bilhões) em 2016, apenas 21,4% dos E£ 141,9 bilhões (medidos em preços reais de de 2016) gerados em 2010, antes da erupção da Primavera Árabe e da deposição do ditador Hosni Mubarak.

Nesse mesmo período o número de visitantes ao país caiu de 14 milhões por ano para apenas 5 milhões, enquanto o impacto direto do turismo (nacional e internacional) hoje responde por apenas 3,2% do PNB (Produto Nacional Bruto) egípcio, contra 9% em 2007, e por 2,9% dos empregos no país, sendo que no passado esse número chegara ao pico de quase 8%

David Scowsill, presidente e executivo-chefe do WTTC, atribuiu a queda mais recente no turismo egípcio à derrubada do avião comercial russo que decolou do resort egípcio de Sharm el-Sheikh em outubro de 2015, matando seus 224 passageiros e tripulantes. O ataque foi reivindicado pela organização terrorista Estado Islâmico.

As companhias aéreas russas retomaram seus voos a Sharm el-Sheikh, mas as do Reino Unido, outro mercado chave do turismo, ainda são proibidas por seu governo de seguir esse exemplo, disse Scowsill.

“A queda do turismo egípcio vai continuar pelo futuro próximo”, ele receia, com o impacto de uma onda de incidentes de segurança muito maior que os ataques isolados que o país enfrentou no passado. O WTTC prevê alta real de apenas 1,9% na receita turística este ano.

“Ao longo dos anos o Egito foi palco de múltiplos ataques, e a cada vez o país se recuperou depois de alguns anos. Desta vez, o problema é muito mais profundo. Começou com a Primavera Árabe, em 2010, e os problemas no Cairo, quando o Egito começou a levar uma sova de verdade. Quando isso ocorre, o país leva mais tempo para se recuperar”, explicou Scowsill.

“Os jovens que normalmente estariam trabalhando no setor de turismo estão tentando vir para a Europa ou viraram potenciais recrutas do terrorismo.”

A Turquia, assolada no ano passado por uma tentativa de golpe de Estado e uma onda de ataques do EI e de separatistas curdos, foi a outra grande perdedora do ano em matéria de turismo. Sua receita direta vinda do turismo estrangeiro caiu 22%, para 80 bilhões de liras (US$ 69,3 bilhões) em 2016.

Pela primeira vez desde 2007 os turistas internacionais que chegam ao país diminuíram em 10 milhões, para pouco menos de 30 milhões, e o turismo foi responsável por apenas 4,1% do PIB (Produto Interno Bruto) turco, contra 4,8% em 2015.

“A Turquia tem toda uma série de problemas com os quais precisa lidar: a guerra na Síria, a crise dos migrantes, a tentativa de golpe, o ataque ao aeroporto [em junho de 2016, quando homens-bomba mataram 47 pessoas no aeroporto de Ataturk, em Istambul]. De um ano para outro, chegaram 30% menos turistas do exterior”, disse Scowsill.

Mas a Tunísia, que assistiu a uma queda acentuada nos turistas que a visitam desde 2014, após massacres de turistas em março e junho de 2015, conseguiu se estabilizar no ano passado, com a receita do turismo internacional caindo apenas 2,5%, para 3,7 bilhões de dinares (US$ 5,1 bilhões) e o número de visitantes ligeiramente superior ao ano anterior, chegando a quase 6 milhões.

“O turismo está começando a voltar”, comentou Scowsill. “O governo tunisiano e o setor privado fizeram um grande trabalho de divulgação do país e de melhoria da segurança.”

Com a Bélgica e a França também tendo sofrido quedas no número de turistas e na receita turística, por razões relacionadas ao terror, vários outros países europeus se beneficiaram dos turistas que partiram em busca de destinos mais seguros.

O líder dessa tendência foi o Chipre, com um aumento de 17,1% em sua receita turística internacional, seguido pela Bulgária, com 12,4%. Vários países do leste europeu com indústrias turísticas muito menores também se beneficiaram de crescimento sólido, a começar por Eslováquia (13,2%), Polônia (8,6%) e Hungria (6,8%).

Mas em termos regionais, o crescimento maior no ano passado se deu no Sudeste Asiático, com uma alta de 8,3% na receita turística, seguido pelo sul da Ásia, com mais 7,9%. A região de desempenho mais fraco foi a América Latina, assolada pela recessão e que registrou crescimento de meros 0,2%.

O sucesso do Sudeste Asiático é alimentado em parte pela crescente riqueza da China e sua abertura ao mundo. O número de turistas chineses que viajam a outros países foi previsto pelo WTTC para chegar a 130 milhões este ano, sendo que em 2010 foi de 58 milhões.

Os turistas chineses foram responsáveis por 21,2% dos gastos globais com viagens e turismo em 2016 –quase o dobro do segundo colocado, os EUA, com 11,1%.

“Mais chineses estão ingressando na classe média, e Pequim incentiva as pessoas a viajar e aprimorar seu conhecimento do mundo”, explicou Scowsill, apontando para um desequilíbrio comercial crescente, já que a China recebeu apenas 55 milhões de visitantes de outros países em 2016.

Chama a atenção o fato de que os únicos dois lugares na região onde os turistas foram em número menor no ano passado foram Hong Kong e Macau, onde o governo chinês impôs limites aos gastos feitos por chineses da China continental, em um esforço para limitar a fuga de capitais.

Mas Scowsill ponderou que a maior razão da alta da receita turiística no Sudeste Asiático é o forte crescimento econômico na própria região, algo que alimenta o turismo entre os países da Ásia e Oceania e que Scowsill crê que poderá ser reforçado com a possível introdução de um visto ao estilo do da área de Schengen, abrangendo a região toda.

“Os países que integram a Asean (Associação de Países do Sudeste Asiático) estão em franco crescimento. Muitos deles estão recebendo milhões de visitantes chineses, que gastam muito dinheiro”, falou Scowsill. “Mas suas próprias economias estão crescendo. O turismo chinês é apenas um detalhe positivo adicional.”

Mianmar teve a ascensão mais rápida desde 2010 de sua receita com o turismo internacional –um crescimento de 73,5%, embora o ponto de partida tenha sido baixo. No ano passado o país recebeu quase 8 milhões de visitantes, e o turismo foi responsável por 2,1% de seu PIB.

O Sri Lanka vem apresentando crescimento forte, enquanto continua a se recuperar do impacto da guerra civil que o assolou por 20 anos. Sua receita turística subiu 26,4% desde 2010, com mais de 2 milhões de turistas contribuindo com 4,4% do PIB da ilha.

Ao todo, disse Scowsill, o setor de turismo “ainda está robusto”, tendo sua receita global subido 3,3% em 2016 (já contabilizada a inflação) -o sexto ano consecutivo em que o crescimento do turismo superou o crescimento econômico global.

Tradução de CLARA ALLAIN

Via: http://www1.folha.uol.com.br

 

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